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Prompt Injection: o caso Natura e o risco da IA em documentos invisíveis

7 min de leitura
Prompt Injection: o risco de IA que sua empresa precisa conhecer

Uma petição protocolada em nome da Natura trazia, no fim do texto, instruções em fonte branca sobre fundo branco.

Invisíveis ao olho humano. Perfeitamente legíveis por uma IA.

O juízo de Rio Negrinho (SC) classificou a prática como fraude processual: comandos destinados a “ludibriar, manipular e induzir a erro” os sistemas automatizados do Judiciário.

A decisão aplicou multa de 10% sobre o valor da causa — o teto previsto no art. 77, §2º do CPC —, além de danos morais e ofício à OAB.

A Natura afirmou que repudia a prática, notificou o escritório responsável e reforçou treinamentos.

Traduzindo: a conduta foi de um terceiro. A condenação e o desgaste de marca foram da empresa.

E esse é o ponto que quase todo mundo está lendo errado nesse caso.

O que é prompt injection?

Prompt injection é a inserção deliberada de instruções em um conteúdo para que um sistema de inteligência artificial (IA) trate aquele conteúdo como comando, e não simplesmente como dado.

No caso da Natura, as instruções estavam escondidas em um documento por meio de texto branco sobre fundo branco.

Para uma pessoa, o texto era invisível.

Para um sistema automatizado capaz de processar o conteúdo, não necessariamente.

Quem trabalha com aplicação reconhece o padrão na hora: é o mesmo erro conceitual do SQL injection.

O sistema não consegue distinguir adequadamente uma instrução legítima de um conteúdo não confiável vindo de fora.

Prompt injection vai muito além de texto branco

A técnica não depende de uma única forma de esconder instruções.

As notas técnicas do TJSC e do TJMG já catalogam diferentes vetores, como:

  • fonte com menos de 1 ponto;
  • caracteres de largura zero;
  • metadados adversariais em PDF;
  • camadas sobrepostas;
  • texto fora da área visível;
  • legendas de imagem;
  • OCR induzido a erro.

Ou seja: um documento aparentemente normal para um ser humano pode carregar instruções destinadas a manipular um sistema de IA.

Prompt injection e alucinação de IA não são a mesma coisa

Vale separar duas coisas que a imprensa mistura.

Alucinação — como jurisprudência inventada — é negligência, punida desde 2025. Prompt injection é dolo.

Não é a mesma conversa.

Na alucinação, o sistema de IA produz uma informação incorreta, como uma decisão judicial ou precedente que não existe.

No prompt injection, existe uma tentativa deliberada de influenciar o comportamento do sistema por meio de instruções inseridas no conteúdo que ele irá processar.

Essa diferença é fundamental quando falamos de segurança da informação e governança de inteligência artificial.

O caso Natura não é isolado

O episódio envolvendo a Natura não surgiu sozinho.

Três meses de linha do tempo dão a dimensão do problema:

12/05 — Parauapebas (PA): primeiro caso documentado. Detectado pelo Galileu, a IA do TRT. Multa solidária de R$ 84 mil.

20/05 — STJ: comandos ocultos são encontrados em pelo menos 11 processos criminais. Herman Benjamin manda abrir inquérito policial.

09/06 — CNJ: o Plenário ratifica por unanimidade nota técnica nacional e determina que os autos sejam tratados como “dado não confiável”.

08/07 — TRT-5 (BA): 10% do valor da causa mais R$ 30 mil por ato atentatório à dignidade da Justiça.

22/07 — Caxias do Sul (RS): mesma conduta, nenhuma multa. O juiz aplica estritamente a vedação do art. 77, §6º.

Repare no último ponto.

Há hoje três desfechos diferentes para condutas idênticas:

  1. sanção somente ao advogado;
  2. sanção à empresa;
  3. nenhuma multa.

Nenhum tribunal superior pacificou a questão.

Ou seja: se houver um comando oculto em uma peça em seu nome, quem paga a conta ainda depende de qual vara pegou o processo.

Você não controla esse risco.

Só pode evitar que ele exista.

O ponto cego da governança de IA é o fornecedor

A Natura fatura R$ 22 bilhões e tem 13 mil colaboradores.

Não é uma empresa sem governança.

Mesmo assim, virou manchete nacional por causa de um parágrafo invisível em uma petição de Juizado Especial que ela provavelmente nunca leu.

Porque a governança de IA parou nos limites do CNPJ. O risco não parou.

Esse talvez seja o aprendizado mais importante do caso.

Quando uma empresa terceiriza um processo, o risco operacional e reputacional não é automaticamente terceirizado.

Se um escritório, agência, BPO ou outro fornecedor produz conteúdo em nome da sua empresa, a sua marca continua exposta.

E isso vale muito além do Judiciário.

O risco de prompt injection também existe fora dos processos judiciais

Imagine uma empresa usando IA para analisar:

  • currículos;
  • propostas comerciais;
  • notas fiscais;
  • contratos;
  • tickets de suporte;
  • documentos enviados por clientes;
  • relatórios produzidos por fornecedores.

Em todos esses casos, existe uma superfície potencial de ataque.

Se um sistema de IA recebe conteúdo externo e esse conteúdo pode influenciar o comportamento do modelo, existe um problema de segurança de IA que precisa ser considerado.

Cinco medidas para reduzir o risco de prompt injection

1. Inclua uma cláusula de IA nos contratos com fornecedores

Escritórios, agências e BPOs que produzem conteúdo em nome da sua marca precisam ter:

  • dever de declaração de uso de IA;
  • vedação expressa a técnicas de manipulação;
  • responsabilidade regressiva.

A empresa precisa saber como seus fornecedores estão utilizando inteligência artificial em processos que podem gerar documentos em seu nome.

2. Trate todo documento externo como dado não confiável

Vale para o Judiciário e vale para você.

Se existe um copiloto lendo currículos, propostas, notas fiscais ou tickets, é a mesma superfície de ataque.

O documento deve ser tratado como dado não confiável antes de ser processado por um sistema de IA.

3. Faça a detecção antes do envio

Texto invisível é trivial de encontrar.

O Acrobat resolve boa parte dos casos. Um script com PyMuPDF resolve o resto.

O que falta não é ferramenta.

É uma etapa no processo.

A detecção precisa fazer parte do fluxo de revisão antes que um documento seja enviado, protocolado ou utilizado por outro sistema automatizado.

4. Tenha human-in-the-loop de verdade

A nota técnica do TJSC chama a conferência humana de “indispensável e indelegável”.

Se ninguém lê antes de assinar, você não tem revisão.

Tem carimbo.

A inteligência artificial pode acelerar processos, mas não elimina a necessidade de supervisão humana em atividades que envolvem responsabilidade jurídica, reputacional ou financeira.

5. Treine quem não é técnico

Quem aprovou aquela petição não precisava saber programar.

Precisava saber que isso existe.

Esse é um dos maiores desafios da governança de IA nas empresas: o risco tecnológico não fica restrito ao departamento de TI.

Quem aprova, revisa, assina ou encaminha documentos também precisa conhecer os riscos básicos envolvidos no uso de IA.

A tecnologia raramente é o problema

Passei a carreira em segurança da informação e a lição se repete a cada cinco anos, com uma roupagem nova:

o problema é o processo que ninguém revisou porque “sempre funcionou assim”.

A IA não criou a má-fé.

Criou um vetor novo para uma má-fé que já existia — e ampliou o estrago para quem apenas assinou o contrato.

O caso Natura mostra que governança de inteligência artificial não pode terminar dentro da empresa.

Se a sua organização terceiriza qualquer processo em que um texto é produzido e enviado em seu nome, a pergunta vale hoje, não depois da manchete:

Você sabe como seus fornecedores estão usando IA?

Essa talvez seja a pergunta mais importante que o caso deixa para as empresas.

Por Thiago Guedes Pereira
CEO/Founder na DeServ – Tecnologia & Serviços

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